A Divisão do Parkour - Stephane Vigroux


Já faz tempo desde o dia em que percebi que o Parkour mudou.  Acredito que entre 2008 e 2009 foi onde observei a maior mudança do Parkour Nacional, percebi uma mudança de interesses, uma nova consciência publica do Parkour e uma transformação nas comunidades de Parkour as quais ainda pertencia na época.

Por incrível que parece foi nesta época que tive a minha maior catarse envolvendo o Parkour, onde consegui observar a filosofia de uma forma nova que reformulou toda a minha prática e minha integração com o Pk Original. Mas nesta época tivemos também uma maior incidência de acrobacias no Parkour.  Foi então que começaram a bombar no YouTube vídeos de mortais e saltos insanos de Parkour, em 2011 tivemos o Art of Motion no Brasil, brigas, discussões e muitoooo o que se falar a respeito... depois disso o Parkour Nacional nunca mais foi o mesmo infelizmente.

As comunidades nunca mais criaram bom conteúdo e a discussão e disputa de egos só separou ainda mais os praticantes.  Eu pensava que somente eu pensava nisso, somente eu sentia raiva e desprezo ao ver isso e pensava que somente eu teria coragem de falar a respeito... Só que não!  Cada vez mais Traceurs em todo Mundo estão demonstrando sua indignação. E eu percebo agora que esta é a chance de esclarecermos as coisas e quem sabe voltar as Origens.


A SEPARAÇÃO (THE SPLIT) 

Por Stephane Vigroux


"A Separação"


"Sendo francês e aprendendo meu Parkour em Lisses com David Belle (começo de 1998) eu tive sorte de fazer parte do início do Parkour. Eu tive a chance de treinar e aprender em uma época em que o que fazíamos era completamente desconhecido para o mundo: somente alguns poucos jovens loucos treinando "uma coisa" em uma cidade pequena. Não existia interesse da mídia, nem dos jornais, não havia câmeras e nem internet. Somente a cidade, nossa busca por uma identidade, medos, e um corpo e mente sedentos por desafios, auto desenvolvimento e crescimento.


Depois de algum tempo eu naturalmente passei a ensinar e dividir um pouco do conhecimento que havia recebido enquanto treinei com David Belle, Sebastien Foucan e Williams Belle - todos eles haviam sido de grande inspiração para mim.


Enquanto passava à frente este conhecimento e conhecia a nova geração de praticantes, eu rapidamente me dei conta: parkour está evoluindo, mudando, e uma parte está se diferenciando. Está criando uma tendência e uma mentalidade diferentes.


Naquela época eu achei que não tinha problema, desde que conseguíssemos manter e sustentar o espírito e a essência do parkour vivos, de que há lugar para todos e que nós somos homens livres para pensar e para fazer as coisas ao nosso modo. Eu prefiro tentar repassar e focar no que nós compartilhamos, nas semelhanças entre o modo como nos movimentamos e treinamos e nosso modo de viver, do que focar em segregar nossa comunidade ainda mais em um estágio tão inicial de desenvolvimento do nosso "movimento".


Então minha estratégia e mensagem durante aqueles 5-6 anos foi muito parecida com a de uma federação; enxergando todos como UM único movimento unido que deveríamos manter unido. Minha intenção foi correta, eu acho, no começo.


Muitos anos se passaram e eu trabalhei com praticamente todos os grandes grupos de parkour ao redor do mundo. Eu tive muito tempo para observar o parkour crescendo e evoluindo, e eu posso dizer com toda a honestidade que os Redbullion (termo criado por Sebastien Foucan para descrever o vírus que está diluindo nosso movimento) e também aqueles que só querem "se mostrar" NÃO estão praticando parkour! Eles NÃO estão treinando a mesma disciplina que nós criamos na França tantos anos atrás.


Apesar dos saltos deles parecerem o mesmo em um vídeo, visualmente parecer ser a mesma coisa, o significado por trás daqueles saltos, a razão e a motivação para fazê-los, o estado de espírito enquanto fazem e a intenção são, em essência, completamente diferentes. Parkour não é, e nunca foi, acrobacias aleatórias em paredes. O que realmente importa, o que vai beneficiar ou prejudicar cada indivíduo, é o que está por trás da performance propriamente dita. Eu vejo uma verdadeira separação ocorrendo neste sentido com muitos das gerações mais novas que estão tentando praticar parkour.


Deixe-me explicar o que o parkour realmente é: parkour é uma uma prática baseada em movimento do corpo com o objetivo de tornar o indivíduo mais forte física e mentalmente, se tornando um ser humano mais balanceado e apto que então pode ajudar a comunidade e outras pessoas.


É uma definição bastante generalizada e tenho certeza que muitos irão pensar: "sim, eu sou assim, é isso que eu faço". Mas pense novamente. Detalhes fazem a diferença. Parkour é uma MENTALIDADE. Um estado de espírito, uma cultura de trabalho árduo e de esforço, sendo estas características as que fizeram com que o parkour existisse em primeiro lugar. Sem essa mentalidade, se fosse somente baseado nos eventos e mensagens superficiais e vazias repassadas pela mentalidade Redbull, nunca teria sido criado.


Novamente, visualmente parece a mesma coisa, mas é o que está acontecendo por trás do salto, na mente de cada praticante, que pra mim define se o que você está fazendo é parkour ou não. É uma mentalidade que você pode encontrar em muitas atividades diferentes ou em muitas pessoas, e essa é a essência do parkour. Não o maldito salto!


Parkour deveria ser mais pessoal, focando no esforço interno que cada pessoa tem que fazer para se tornar mais forte em várias frentes. Essa é uma mentalidade. E você poderia encontrar essa mentalidade pintando, escrevendo, praticando boxe... Em praticamente tudo o que fazemos, na verdade.

Isso foi confirmado por mim recentemente enquanto tinha uma conversa com meu amigo Ido Portal. Não é sobre o que você faz, mas COMO você faz as coisas. Com que intenção e estado de espírto. Eu me sinto mais próximo de qualquer um que pratique qualquer atividade com um pensamento similar do que com qualquer Redbull que eu venha conhecer.


Quando eu vejo no Youtube e quando eu digito parkour ou freerunning, eu não consigo me identificar com 99,99% do que aparece na busca. Por quê? Porque o que nós fazemos é completamente diferente por dentro. Enquanto no parkour nós estamos tentando entender mais sobre nós mesmos, ganhar mais confiança, ser uma pessoa mais feliz, mais forte em várias frentes da vida,o outro tipo de praticante está alimentando seus egos com performance de curto prazo que resultará em mais sofrimento e, eventualmente, no fim dos seus movimentos e de sua integridade física.


Há uma SEPARAÇÃO óbvia para o que fazemos agora. A palavra parkour tem sido usada mal e exageradamente. Perdeu força e significado. A identidade do parkour foi roubada e explorada. Essas más interpretações estão representando tudo o que lutávamos contra no início da criação do parkour. As grandes marcas vendendo nossa própria cultura para nós, nos prendendo ao consumo dos seus produtos, tentando controlar e abusando da imagem do parkour para vender bebidas energéticas, cassinos, academias indoor... Quanto mais você seguir esta mentalidade, menos você será livre e forte.


Isso é muito perturbador, se você parar para pensar. Essa nova corrente se tornou a mentalidade oposta do que a que originou o parkour! Fazendo um pouco de pesquisa eu encontrei muitas pessoas "insatisfeitas", para falar educadamente, com as grandes campanhas publicitárias de empresas como a Redbull inseridas no mundo dos artistas de grafiti e skatistas. Puristas, talvez, mas eram pessoas bastante conscientes de que estavam sendo exploradas e que estavam lutando contra essa máquina que estava roubando deles também.


Eu sinto muito pelo meu amigo Sebastien Foucan que começou a utilizar a palavra Freerunning depois do Jump London: a definição original dessa palavra feita por ele também se perdeu e foi devorada pelo grande parasita, e agora representa algo completamente diferente do que é a visão dele.


Pense no que estamos fazendo. Reflita sobre suas ações e seus movimentos. Por que você se movimenta? Por que você se arrisca? Seja honesto consigo mesmo quando responder a essas perguntas. E descubra se o que você está fazendo está alinhado com uma filosofia positiva e significativa. Não pense que você é livre e forte só porque você acabou de postar o seu novo salto no Youtube ou porque você é patrocinado por uma marca qualquer.


Eu fiquei em silêncio até agora e posso perder alguns "amigos" do Facebook com essas palavras, mas senti que tinha que dizer algo. Porque o que estávamos treinando antes está morrendo e sendo substituído por uma piada. Por algo que não tem nem profundidade nem significado. Eu acho que muitos praticantes sérios ao redor do mundo compartilham deste pensamento, e eu os encorajo a falar mais alto!"



Por Stephane Vigroux



O texto acima foi traduzido pela Traceuse:  Maria Alice Fonseca no dia 18 de Novembro de 2013.

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